Em uma mensagem de WhatsApp disparada para aliados e grupos políticos, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, tentou reescrever a história de sua gestão. Com um vocabulário repleto de jargões corporativos e eufemismos técnicos, ele buscou justificar o injustificável: a relação promíscua e ruinosa do banco público com o Banco Master. O texto soa menos como uma prestação de contas e muito mais como uma confissão disfarçada.
Costa inicia sua defesa listando os supostos avanços tecnológicos e a expansão do BRB entre 2019 e 2025. É a clássica tática de exaltar a pintura da fachada enquanto esconde que os alicerces do prédio estão ruindo. O cerne da mensagem, no entanto, é a tentativa desesperada de lavar as mãos diante do escândalo bilionário envolvendo a compra de carteiras de crédito do Banco Master.
O eufemismo para a fraude
O trecho mais cínico do texto ocorre quando o ex-presidente admite que, em abril de 2025, o BRB identificou um “padrão documental distinto” nas carteiras adquiridas do Master. É uma forma assustadoramente polida de se referir ao que a Polícia Federal e as investigações apontam como um esquema colossal de emissão de créditos e títulos falsos — fraudes que podem ultrapassar a marca de R$ 12 bilhões.
Chamar indícios de fraude de “padrão documental distinto” é o ápice do malabarismo retórico. Costa tenta vender a imagem de um gestor zeloso que suspendeu as operações assim que notou o problema, mas omite que o BRB jamais deveria ter se exposto a esse nível de risco com uma instituição de reputação tão questionável no mercado.
A entrega de 25% do banco e o prejuízo milionário
A farsa da mensagem atinge seu limite quando Paulo Henrique Costa aborda o aumento de capital do BRB realizado em 2024. Ele descreve a operação como um movimento natural para “reforçar a base de capital” e diz que a venda de ações para terceiros “é de responsabilidade dos compradores”. A realidade, contudo, é muito mais sombria.
Como revelado pela imprensa, fundos e pessoas ligadas ao Banco Master e à Reag Investimentos aproveitaram essa exata operação para comprar 33% das ações preferenciais e 11% das ordinárias do BRB. Na prática, o grupo Master/Reag tornou-se dono de 25% do capital do Banco de Brasília, transformando-se no segundo maior acionista da instituição, atrás apenas do Governo do Distrito Federal. O próprio dono do Master, Daniel Vorcaro, adquiriu ações por meio de sua holding.
Para piorar, essa “operação de mercado” custou caro aos cofres públicos. O BRB teve um prejuízo direto de R$ 107 milhões ao emitir essas ações, pois vendeu os papéis por R$ 8,45, embora eles valessem R$ 9,95 na época. Ou seja: a gestão de Costa subsidiou a entrada dos mesmos banqueiros que, meses depois, deixariam um rombo bilionário no mercado.
A conta que ficou para o povo
O distanciamento da realidade se consolida quando o ex-gestor minimiza as provisões adicionais exigidas pelo Banco Central, chamando-as de “medidas prudenciais típicas do sistema financeiro” que “não significam prejuízo”.
Ele omite convenientemente o detalhe mais grave dessa herança maldita: para cobrir o rombo deixado por essas operações “típicas”, o atual Governo do Distrito Federal (GDF) foi obrigado a enviar à Câmara Legislativa um projeto para rifar 12 imóveis públicos, tentando levantar R$ 2,6 bilhões às pressas para fugir de sanções do BC.
Leia a mensagem enviada pelo WhatsApp na íntegra.
Boa noite a todos.
Conforme compromisso assumido no grupo, encaminho um resumo das informações com o objetivo de aumentar a transparência sobre as questões envolvendo o BRB na minha gestão, encerrada em novembro de 2025, e baseado em informações públicas.
Entre 2019 e 2025, o BRB passou por uma transformação estrutural. Saiu de uma instituição local, concentrada em crédito consignado e com tecnologia obsoleta, para um banco nacional, digital, completo e com milhões de clientes em todo o país. Diversificou suas operações de crédito e captação, ampliou sua atuação em seguros e investimentos, modernizou sua tecnologia e consolidou seu papel como banco público estratégico do Distrito Federal, com impacto econômico e social relevante. Tornou-se líder no crédito imobiliário e no crédito rural, expandiu sua presença em seguros, passou a ter o melhor cartão de crédito do Brasil, o melhor sistema de gestão de depósitos judiciais e assumiu papel central na operação de programas sociais e de atendimento ao cidadão do DF.
Desde o planejamento estratégico aprovado em 2019, o crescimento do BRB foi estruturado em dois pilares: expansão orgânica e crescimento não orgânico. Parcerias estratégicas, fusões e aquisições (M&A) e aquisições de carteiras sempre estiveram previstas como instrumentos legítimos para ganhar escala, diversificar receitas, acessar tecnologia e completar portfólio — seguros, investimentos, meios de pagamento e banco digital — posicionando o BRB como banco moderno, completo e de primeiro relacionamento.
Carteiras de crédito
Entre 2021 e 2025, o BRB movimentou mais de R$ 40 bilhões em operações de compra e venda de carteiras de crédito com mais de dez instituições financeiras, seguindo padrões usuais de mercado, critérios objetivos de seleção das operações e registros regulatórios na B3 e na Central de Risco do Bacen.
As carteiras de cartão de crédito consignado adquiridas do Banco Master a partir de julho de 2024 apresentaram desempenho satisfatório e dentro das premissas originais, com inadimplência de 0,08%. Em razão desses resultados, a estratégia foi mantida em 2025. Em abril de 2025, contudo, foi identificado padrão documental distinto nas originações de 2025. O BRB suspendeu imediatamente novas cessões com as mesmas características, ampliou as verificações, exigiu a contratação de uma auditoria independente e comunicou o Banco Central.
Em maio de 2025, o BRB exigiu garantias adicionais e iniciou a substituição integral dessas carteiras. No momento da liquidação do Master, restavam R$ 2,5 bilhões a substituir, amparados por aproximadamente R$ 10 bilhões em garantias adicionais.
Na seleção dos ativos que substituíram as carteiras originadas por terceiros, foi aplicado deságio de cerca de R$ 3 bilhões e foram recusados mais de R$ 4 bilhões em ativos que não atenderam aos critérios técnicos do BRB. Sendo que até setembro de 2025, a estratégia de compras de carteira de crédito havia gerado margem financeira acumulada superior a R$ 3,6 bilhões.
Aquisição do Master
A tentativa de aquisição do Master também se inseria na diretriz de M&A estabelecida desde 2019, sendo a terceira iniciativa formal de aquisição de participação societária pelo BRB. O objetivo era complementar o portfólio em segmentos nos quais o banco ainda não tinha presença relevante — como cartão de crédito consignado, grandes empresas, mercado de capitais, câmbio e banco digital — além de acessar recursos especializados de tecnologia e estrutura de capital.
A operação seguiu padrão de mercado, com assessores externos, análises técnicas, jurídicas e regulatórias e acompanhamento do Banco Central.
Não houve tentativa de salvamento institucional. Desde o anúncio inicial, foi comunicado que o BRB não tinha interesse em parte relevante dos ativos e passivos do Master, especialmente, os menos líquidos ou com perfil de maior risco. Aproximadamente R$ 51,2 bilhões foram retirados do Master, permanecendo R$ 23,9 bilhões em ativos e passivos de melhor qualidade e menor custo. A conclusão da operação dependia de uma séria de condições precedentes, incluindo aprovações regulatórias e, posteriormente, a saída dos controladores. O Banco Central decidiu não aprovar a operação, e o processo foi encerrado, sem nenhum impacto no BRB.
Importante registrar que a estratégia de aquisição societária não se confunde com a estratégia de aquisição de carteiras, que já vinha sendo executada com diversas instituições desde 2021 e que envolveu o Master antes de qualquer discussão societária.
Aumento de Capital (ACP 2024)
O fortalecimento de capital do BRB já estava previsto no planejamento estratégico desde 2019, como condição para sustentar o crescimento e preservar conforto prudencial. Em 2021 houve tentativa de follow-on, que foi suspenso quando o mercado brasileiro para IPOs e follow-ons fechou em razão do ambiente macroeconômico.
Em 2024, após avaliação com assessores externos sobre a possibilidade de fazer um follow-on ou um aumento de capital privado, o cenário apontou para o aumento de capital privado, que foi efetivamente realizado dentro dos ritos de governança e das normas aplicáveis, com participação de investidores de mercado em duas tranches. O objetivo foi reforçar a base de capital e dar solidez ao plano de expansão do banco. A eventual venda dessas ações por esses investidores para terceiros é de responsabilidade dos compradores das ações, sendo que os dois aumento de capital foram devidamente homologados pelo órgão responsável.
Por fim, eventuais provisões adicionais determinadas pelo Banco Central são medidas prudenciais típicas do sistema financeiro. Elas não significam prejuízo nas compras de carteiras, cujo resultado somente poderá ser avaliado ao longo da vigência dessas operações. As provisões visam reforçar a proteção e a segurança da instituição. O aumento de capital já estava previsto e acordado com o acionista controlador desde setembro e vai fortalecer o BRB para seguir cumprindo seu papel de banco público e agente de desenvolvimento do DF.
Como sempre, estou à disposição para tratar as eventuais dúvidas.
Um forte abraço,
Paulo Henrique






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