O comportamento de Kassio Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal indicado pelo golpista condenado Jair Bolsonaro, volta ao centro da polêmica por um motivo que dispensa floreio: ele viajou em aeronaves ligadas a pessoas que atuam justamente nos tribunais onde exerce poder. Em vez de separar a toga das conveniências de Brasília, o ministro parece confortável demais nessa zona cinzenta onde amizade, privilégio e influência se abraçam sem cerimônia.
Na primeira revelação, Nunes Marques viajou de Brasília a Maceió, ao lado da esposa, em um avião particular custeado pela advogada Camilla Ewerton Ramos, que atua para o Banco Master. A aeronave é administrada por empresa ligada à estrutura empresarial de Daniel Vorcaro.
O ministro disse que se tratou de um convite para a festa de aniversário da advogada e que todos os custos foram pagos por ela. A versão foi confirmada pela própria Camilla, que também afirmou ter bancado o deslocamento de outros convidados.
Na segunda, o quadro fica ainda mais grave. Nunes Marques usou aeronaves do advogado eleitoral Gustavo Severo, que atua em processos no TSE — corte da qual o próprio ministro é presidente.
Severo já integrou a defesa de Cláudio Castro em ação eleitoral. Quando o caso chegou ao TSE, ele se afastou formalmente, mas o ministro participou do julgamento e votou pela absolvição do governador, que acabou derrotado por 7 a 2 e se tornou inelegível.
Os registros mostram ao menos cinco ocasiões em setembro de 2025 em que Nunes Marques e Severo acessaram juntos o terminal executivo do aeroporto de Brasília, seguidos por decolagens do jatinho do advogado.
“Não é o que vocês estão pensando…”
Em uma dessas viagens, o destino foi uma propriedade do cantor Gusttavo Lima, em Goiás, onde acontecia uma festa de aniversário. Houve também deslocamentos para São Paulo, Belém e Rio de Janeiro, além de uma viagem oficial do ministro ao Pará. Em outro episódio, o filho de Nunes Marques também teria usado a aeronave.
O ministro diz que se declara impedido nos processos em que o advogado atua e que isso seria registrado previamente, preservando a integridade do Judiciário. Mas o problema não é apenas processual. O problema é político, ético e simbólico: um ministro do Supremo, que preside o TSE, viajando no jatinho de um advogado que milita justamente nos tribunais sob sua autoridade. Não é normal. Não deveria ser tolerado como rotina. E não pode ser tratado como detalhe de agenda social.
A direita adora pregar moralidade pública enquanto opera no subterrâneo dos favores, das relações pessoais e da influência de gabinete. O caso Nunes Marques expõe isso com clareza brutal: no Brasil real da elite institucional, a imparcialidade entra no aeroporto, mas não embarca.






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