Ela foi achada sem cabeça nas águas do Rio Paraíba do Sul, em 1717, por três pescadores. Foi quebrada em mais de 200 pedaços num atentado, em 1978, e remontada. Sobreviveu a séculos de devoção, a ataques iconoclastas, a igrejas que chamam seu culto de idolatria. Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil desde 1930, já atravessou coisa pior do que uma eleição.
Mas nunca foi tão usada como agora.
Reparem no que aconteceu nos últimos três dias. Um projeto de lei de 2007 — apresentado por um deputado bolsonarista, ex-assessor do governo Bolsonaro — queria tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O texto, apresentado em 12 de dezembro de 2007, dizia com todas as letras: “A alteração tira o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil”. A partir da aprovação, a Santinha seria “rebaixada” a padroeira tão somente dos “brasileiros católicos”. Foi rejeitado por unanimidade numa comissão da Câmara em 2008 e arquivado em 22 de agosto daquele ano. Ficou 18 anos numa gaveta.
E de repente, na quarta-feira, uma jornalista menciona num programa da GloboNews a existência de um movimento de evangélicos pressionando por essa mudança. A emissora, pressionada por bolsonaristas, se retrata. E aí o inferno se solta.
Porque aí a máquina entra em ação. O assunto explode: 735 menções a cada 100 mil mensagens, contra uma média de 40 nos dias anteriores. Mais de 2 mil publicações, 21 milhões de visualizações. E 73% dos posts nas redes abertas — repitam, 73% — criticam Flávio Bolsonaro. O candidato que, segundo a pesquisa, é detonado justamente onde a fé mora.
E o que faz a campanha? Chora perseguição. Flávio grava um vídeo chamando tudo de “grande mentira”, de “máfia do PT”, jura que é evangélico mas respeita todas as religiões. E corre para a Justiça.
Aqui a cena muda de figura. Quem atende é André Mendonça — o ministro “terrivelmente evangélico”, pastor presbiteriano, indicado ao STF pelo golpista Jair Bolsonaro, o mesmo que passou semanas protegendo o caso do candidato com a gaveta fechada. Mendonça manda o humorista Antonio Tabet apagar o post. Aquele que dizia: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!” Ao longo das últimas 48h, o ministro, que age como escudo de Flávio Bolsonaro, censurou mais de mil e seiscentos posts nas redes sociais sobre Nossa Senhora Aparecida.
Reparem no detalhe que a defesa de Tabet grita: o post nem citava Flávio pelo nome. Não importou. A ordem veio, com multa de R$ 30 mil por republicação. E o ministro, para justificar, invocou os precedentes das eleições de 2022 — aqueles que foram usados para proteger Lula de montagens falsas, do “pai Xangô”, do “fim do cristianismo”. Os escudos que defendiam o candidato de esquerda agora blindam o candidato da família. A régua, mais uma vez, mede para um lado.
E é aqui que a história revela sua ironia mais profunda. Porque o “boato” que a campanha chama de fake news não é inteiramente falso. O projeto existiu. E o autor desse projeto não é um desconhecido na órbita do candidato — é o seu aliado.
Victorio Galli, o autor do PL contra a padroeira, declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A aproximação apareceu num encontro em abril deste ano, durante um evento do agronegócio — onde Galli chamou o presidenciável de “amigo”. “Amigo”. Não é um adversário, não é um distante, não é um desgarrado do partido. É o amigo que faz campanha para ele, o apoiador declarado, o ex-assessor especial da Presidência no governo do pai.
Diante da repercussão negativa, Flávio Bolsonaro teve que vir a público negar apoio ao projeto do “amigo”. Foto: RS/Fotos Públicas
Então, quando Flávio jura que “não tem nada a ver com o projeto”, ele está tecnicamente certo — a autoria é de Galli, e o apoio eleitoral de um aliado não prova adesão do candidato à proposta arquivada. Mas é uma verdade que só se sustenta no papel. Porque na vida real, o homem que quis destronar a padroeira é o mesmo que chama o candidato de amigo, que sobe no palanque dele, que pede voto para ele. E o candidato, esse, não teve uma palavra de reprovação — teve um vídeo de negação e uma liminar de censura.
O que a campanha chama de mentira é, na verdade, um eco distorcido de uma ameaça real, plantada na própria casa do candidato. E o que ela censura não é a mentira — é a lembrança.
Porque o verdadeiro projeto de dominação religiosa não precisa de projeto de lei. Ele foi dito, em voz alta, pelo próprio candidato: decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Não é tirar o título de uma santa. É transformar o Estado em altar. É escolher uma fé para mandar em todas as outras. E isso, ninguém apagou. Isso não virou fake news. Isso segue de pé, sem multa, sem censura, sem retratação.
A história da padroeira é a história do Brasil contada em miniatura. Uma imagem de mulher preta, achada sem cabeça num rio, que virou símbolo de um povo. Que já foi atacada por quem não suporta sua pele, sua fé, sua força. Que já foi quebrada e remontada. E que agora, na reta final de uma eleição, é disputada como se fosse um voto — não uma devoção.
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Enquanto isso, a própria Igreja é espremida. A CNBB perde acesso à sua conta no X. Dom Jaime Spengler repete que a Igreja não declara voto, que religião não se mistura com política. E o arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes — aquele que já foi chamado de “vagabundo” e “safado” por um deputado bolsonarista — vira alvo dos aliados do candidato por ousar defender a soberania do país.
Vejam o desenho completo. O candidato fabrica um martírio falso para censurar um crítico. O ministro “terrivelmente evangélico” serve de escudo. O autor do projeto contra a padroeira é o amigo que faz campanha para ele. A Igreja que não se curva é silenciada. E o projeto real — o Brasil como propriedade de uma única fé, a evangélica pentecostal, esclareça-se — segue avançando, sem precisar de projeto de lei, sem precisar de gaveta, sem precisar de nada além de votos.
A santa, essa, já sobreviveu a tudo. Sobreviveu ao rio, ao atentado, às igrejas que a chamam de ídolo, aos que a quebraram em 200 pedaços. Ela não precisa da sua proteção. Ela precisa que você enxergue o que estão fazendo com o nome dela.
Não deixe que transformem sua fé em palanque. Não deixe que transformem sua devoção em munição. Não deixe que um candidato use a imagem de uma mulher preta, achada num rio, para esconder o projeto de quem quer decretar que o Brasil pertence a uma única fé.
A padroeira não é de nenhum partido. Mas o projeto de transformar o país num altar — esse, tem dono. E dono tem nome, tem sobrenome, tem amigo, tem urna.
Faltam dias para a eleição. Olhe para a santa. E lembre-se: quem quer tirar a sua liberdade não precisa atacar uma imagem. Basta decretar que o Brasil é dele.
Não deixe. Ninguém toca na padroeira. E ninguém toca na sua liberdade de crer — ou de não crer — como bem entender.
