Em um movimento que expõe a suprema ironia da política brasileira, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou na terça-feira (16) o início do processo para romper o contrato com a concessionária Enel em São Paulo. A decisão, tomada em conjunto com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB), escancara o paradoxo de um governo de extrema-direita que, confrontado com o fracasso de um serviço privatizado, corre para os braços do governo de esquerda para pedir uma intervenção estatal.
A decisão é a resposta a um colapso que deixou 2,2 milhões de endereços sem energia após as chuvas da última semana. “A Enel perdeu as condições de estar à frente do serviço de concessão de energia em São Paulo”, declarou Silveira, anunciando um “processo rigoroso de caducidade” a ser conduzido pela Aneel.
O paradoxo da privatização
O episódio é um duro golpe na cartilha ideológica de Tarcísio de Freitas. Ex-ministro de Jair Bolsonaro e um dos maiores defensores do estado mínimo e das privatizações, o governador se viu em uma situação onde a única saída foi apelar para a intervenção do “estado forte”, personificado no governo federal de Luiz Inácio Lula da Silva. A mesma privatização, vendida como solução de eficiência, gerou um problema de tal magnitude que apenas o poder regulador e a força do Estado, tão criticado por seu campo ideológico, podem resolver.
“Não há outra alternativa senão a medida mais grave que existe, que é a decretação de caducidade”, afirmou Tarcísio, endossando a medida drástica do governo federal.
Jogo de empurra e multa
Apesar da frente unida apresentada na coletiva de imprensa, a reunião a portas fechadas não foi isenta de tensões. Segundo apurou o portal UOL, o ministro Alexandre Silveira também apontou a falha da prefeitura de São Paulo na poda de mais de 1.300 árvores que caíram sobre a rede, agravando o problema e dividindo a responsabilidade pelo caos.
Enquanto o processo de rompimento do contrato, que venceria em 2028, se inicia, a concessionária já sente as primeiras consequências. O Procon Paulistano aplicou uma multa de R$ 14,2 milhões à Enel por “falhas graves e estruturais na prestação do serviço”.
O episódio serve como uma lição prática e amarga para os defensores da privatização a qualquer custo: quando a iniciativa privada falha em serviços essenciais, é para o poder público, muitas vezes demonizado por eles, que a sociedade e os próprios políticos recorrem em busca de uma solução.






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