O espelho do Brasil que Flávio quer

O "senso comum" que vira ditadura, como o filme avisa

Por Redação
filme neofascismo Brasil
'O Aniversário', disponível na Prime Vídeo, é sutilmente perturbador para um país ameaçado pelo neofascismo, como o Brasil. Foto: Divulgação

O thriller político “O Aniversário” (Anniversary, 2025), do diretor polonês Jan Komasa, disponível no Prime Video, não passou nos cinemas brasileiros. E dá para entender o porquê: é um filme que incomoda. Ele mostra, em cinco anos, como uma família americana se desintegra enquanto um movimento autoritário chamado “A Mudança” conquista o poder — não com tanques na rua, mas com pequenas concessões que deixam de parecer pequenas. Qualquer semelhança com o neofascismo que ameaça o Brasil — e, de resto, o mundo inteiro — não é mera coincidência, é o mais novo capítulo do ditado segundo o qual a arte imita a vida. Nesse caso, dá medo.

A trama começa na festa de 25 anos de casamento de Ellen (Diane Lane) e Paul Taylor (Kyle Chandler), uma família privilegiada de Washington. A chegada de Liz (Phoebe Dynevor), ex-aluna de Ellen que se torna estrela da mídia conservadora e namorada do filho Josh (Dylan O’Brien), reorganiza a dinâmica. Liz integra “A Mudança”, um movimento que começa como proposta de “senso comum” e gradualmente assume contornos autoritários.

O autoritarismo que se normaliza

A força do filme está em não tratar a ruptura democrática como um acontecimento instantâneo. Não existe uma manhã em que todos acordam em outro país. As mudanças são incorporadas ao cotidiano: discursos antes considerados extremos passam a circular com naturalidade, e a família descobre que já possuía condições para receber a ideologia. A grande provocação do longa é perguntar em que momento uma pessoa deixa de ser espectadora de uma transformação política e passa a colaborar com ela pela própria passividade.

É aí que o filme, sem citar o Brasil, fala diretamente com o Brasil de 2026. O mecanismo que Komasa denuncia é o mesmo que a Frente Livre aponta na campanha de Flávio Bolsonaro: o autoritarismo não precisa de golpe quando encontra uma sociedade disposta a aceitar, uma pequena concessão por vez, a erosão de direitos. O candidato que promete ser “irmão mais do que nunca” da Argentina de Javier Milei — o país onde 20 milhões de pessoas se endividam para comer — não anuncia a ditadura. Anuncia “senso comum”.

O espelho que a extrema direita não quer ver

“O Aniversário” é um alerta sobre a normalização do extremismo, e é exatamente por isso que incomoda. A mesma lógica que leva uma família a relativizar o que antes considerava inaceitável é a que leva um país a aceitar, aos poucos, a jornada de 12 horas sem hora extra, o fim do direito de greve e o endividamento para sobreviver — a cartilha de Milei que a equipe econômica de Flávio quer copiar. O filme não é sobre Flávio. Mas, para quem olha o Brasil de hoje, é difícil não ver o espelho.

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