De Von Helder a Galli: a guerra contra Aparecida

De 1995 a 2026, a santa negra segue sendo chutada pela política

Por Frente Livre
Dino derruba censura
Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Imagem: FLIA

Em meio à festa do Brasil pela sua compadecida padroeira, Juliette Freire, ela mesma, a vencedora do Big Brother que virou cantora de forró, lançou o documentário “A Guerra à Santa”, que denuncia a campanha de hostilidade contra Nossa Senhora Aparecida nesses dias tenebrosos da eleição de 2026. O episódio especial da série jornalística Revelando saiu no YouTube nesta segunda-feira (12), feriado dedicado a Aparecida, e reacende um debate que atravessa três décadas: do chute do pastor Sérgio Von Helder em 1995 ao assessor bolsonarista que em 2007 tentou tirar da santa o título de padroeira do Brasil — e à mentira eleitoral de setembro passado, que o candidato Flávio Bolsonaro jurou desconhecer.

 

>> O documentário “A Guerra à Santa”, com Juliette Freire, está disponível no YouTube e poderá ser assistido ao final desta matéria.

 

A guerra declarada à santa negra

“A Guerra à Santa” não é uma reportagem sobre o passado. É um retrato do presente. A produção revisita a história de Nossa Senhora Aparecida — a imagem encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, a santa negra que se tornou símbolo de um povo — e confronta as manifestações de hostilidade que transformaram a devoção em alvo. Entre os episódios exibidos está a declaração do bispo evangélico JB Carvalho, mentor espiritual do candidato Flávio Bolsonaro, que associou a imagem da santa ao satanismo. Ele chega a se referir a ela como “meretriz”.

Juliette, formada em Direito, não disfarça o incômodo. A cantora, que tem mãe católica e pai evangélico, admitiu ter tido receio de participar da produção diante do ambiente de polarização, mas decidiu seguir por convicção própria. A experiência familiar virou o fio condutor do episódio: como convivem, na mesma casa, tradições religiosas que a política insiste em colocar em guerra? Ao fim, ela interpreta “Romaria”, em um aceno musical à devoção que o documentário defende.

A série Revelando, produzida pela equipe do podcast Calma Urgente com apoio de ICL Notícias, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil, ultrapassou 25 milhões de visualizações. No YouTube, os episódios somam mais de 18 milhões de acessos. O público existe; a pergunta é se o respeito vem junto.

A escalada que a Polícia Federal investiga

O documentário chega em um momento em que a hostilidade contra imagens católicas deixou de ser palavra e virou fogo. No fim de setembro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou à Polícia Federal a abertura de investigação sobre ataques a símbolos religiosos em diferentes estados: a destruição de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em uma capela de Jauru, no Mato Grosso; o incêndio de outra imagem da padroeira às margens da BR-163, em Novo Progresso, no Pará; ataques a imagens de Nossa Senhora das Graças, de Nossa Senhora de Lourdes e de Santa Dulce dos Pobres.

 

 

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Não é coincidência que a violência se concentre em imagens femininas, negras e populares. Aparecida é a santa do povo: pescadora, retinta, milagreira. Atacar sua imagem é atacar a devoção de milhões de católicos pobres — e, de quebra, as religiões de matriz africana, cujos terreiros também aparecem na mira da intolerância que a PF investiga.

A mentira que virou caso eleitoral

Foi nesse cenário que, no fim de setembro, um rumor tomou conta das redes: setores evangélicos ligados a Flávio Bolsonaro articulariam a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O zumzumzum viralizou e com impacto negativo para o candidato, segundo monitoramento da empresa Palver. Flávio reagiu na hora, em vídeo: “Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”.

O problema é que a mentira tem um pé. O projeto de lei 2.623/2007 existe — e não é de qualquer um. Foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, do PMDB do Mato Grosso, um autodeclarado “bolsonarista raiz” que virou assessor especial da presidência no governo Jair Bolsonaro e foi exonerado em junho de 2019 após condenação por declarações ofensivas contra a comunidade LGBTI+. O texto pretendia trocar a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Foi rejeitado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e arquivado. Galli, candidato derrotado a deputado federal pelo PP, declarou apoio a Flávio.

A deputada Erika Hilton (Psol-SP) chamou a antiga proposta de “esdrúxula” e pediu “cautela e atenção” com qualquer movimento de recolocá-la em debate. Jandira Feghali (PCdoB) ironizou ao lembrar que o projeto “não vingou porque foi apresentado durante o governo Lula”. O presidente, em entrevista ao Canal Livre da BandNews, foi direto:

“Mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) movimentou-se, influenciadores católicos saíram em defesa de Flávio, e a BBC registrou “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos” disposta a disputar na Justiça o que a fé definiu há séculos.

O chute que ecoa até hoje

A guerra à santa tem data de nascimento: 12 de outubro de 1995. Em pleno feriado da padroeira, o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou e socou uma imagem de Aparecida ao vivo, no programa “O Despertar da Fé”, transmitido em rede nacional pela TV Record. “Será que Deus, o criador do universo, pode ser comparado a um boneco desse, tão feio, tão horrível, tão desgraçado!?”, bradou ele no ar.

A repercussão foi imediata e devastadora. A CNBB condenou o ato; o então presidente Fernando Henrique Cardoso, também. Católicos indignados atacaram templos da Universal em revolta. O fundador da igreja, Edir Macedo, pediu perdão aos católicos. Von Helder, sob ameaças de morte, foi afastado do programa e processado. Ao ser indiciado, tentou desmontar o próprio ato: “Apenas encostei o pé sobre a estátua e apalpei com as mãos”. A defesa não segurou. Ele foi condenado por discriminação religiosa e vilipêndio à imagem — mas, por ser réu primário, a pena foi convertida e o pastor nunca chegou a ser preso.

 

guerra à santa Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chuta a imagem de Nossa Senhora Aparecida em rede nacional. Foto: Reprodução

 

O episódio, conhecido como “chute na santa”, virou marco. E a igreja que o produziu tratou o assunto como crise de imagem, não como o que era: um ato de intolerância religiosa transmitido em cadeia nacional.

A intolerância não morreu — mudou de roupa

Em 2023, quase trinta anos depois, a história se repetiu em outra escala. Um pastor da igreja Vida Nova, Sérgio Fernandes, chamou a santa de “Satanás fantasiado de azul” ao criticar a instalação de uma estátua de Aparecida na entrada de Bastos, no interior de São Paulo, “indignado com usarem dinheiro público” na escultura. A repercussão o obrigou a se desculpar em carta pública. A frase ficou; o arrependimento, nem tanto.

O que o documentário de Juliette mostra é que a hostilidade deixou de ser acidente e virou método. A fé é usada como escada eleitoral: o mesmo campo político que chuta a santa no palanque evangélico jura devoção a ela diante dos católicos. O candidato que nega o projeto de Galli carrega o assessor no bolso. O que se ataca, no fim, não é uma imagem de barro — é a identidade de um povo, sua história, sua cor e sua devoção.

“A Guerra à Santa” responde à altura: com história, com música, com o testemunho de uma família que vive a fé dividida e unida ao mesmo tempo. Se a intolerância escolheu a guerra, a resposta é a convivência — e a denúncia, sem medo, de quem transforma Deus em arma contra o próximo.

 

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