A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionou nesta quarta-feira (23) o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o vice da chapa, Alfredo Gaspar, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O pedido inclui a cassação da chapa e a inelegibilidade dos envolvidos caso a suspeita central se confirme: a articulação de apoio do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, à candidatura do bolsonarista.
O que a campanha quer descobrir
Na ação, a campanha de Lula acusa o grupo de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Entre as medidas solicitadas estão tomada de depoimentos, requisição de documentos a órgãos públicos e quebra de sigilos para reconstruir a origem de eventuais recursos e a participação de agentes estrangeiros. A investigação mira negociações com autoridades norte-americanas, a aplicação de tarifas e sanções contra o Brasil e a possível utilização de recursos ou estrutura estrangeira na campanha.
Imagem: FLIA
Um dos pontos sob suspeita é a Rockbridge Network, organização conservadora estadunidense ligada ao trumpismo. O empresário Tallis Gomes confirmou fazer parte do grupo, mas negou que ele tenha colocado dinheiro na campanha de Flávio. O financiamento externo ainda não está comprovado, e nenhuma sanção foi aplicada. O salto da ação é justamente este: não se trata mais só de apurar, mas de responsabilizar formalmente a chapa caso a origem estrangeira dos benefícios seja provada.
Paralelamente, o PT acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a abertura de inquérito sobre interferência estrangeira no processo eleitoral, para provocar apuração da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A máquina americana em marcha
O temor não é teoria da conspiração. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou para “nível de criticidade” o risco de influência externa dos Estados Unidos nas eleições, em relatório enviado à Presidência, ao TSE e ao Ministério da Justiça. O documento aponta escalada das pressões de Trump sobre o Brasil e relaciona Washington a uma estratégia para reorientar politicamente a América Latina, com atenção especial ao secretário de Estado Marco Rubio.
Na véspera, 14 governos de extrema direita do continente, organizados por Trump no chamado Escudo das Américas, assinaram acordo que declara 24 facções narcotraficantes “ameaças compartilhadas”, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Sanções conjuntas contra grupos brasileiros, decretadas fora do Brasil, são a porta de entrada da ingerência.
O Governador da Califórnia falando que deveríamos nos preocupar, sim, com a relação entre Trump e “aquela família”, os Bolsonaros. pic.twitter.com/QZz2X4OgEK
— Vai Desmaiar (@vaidesmaiar) September 23, 2026
Dois polos no mesmo corredor
Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o contraste ficou exposto. Lula abriu os trabalhos defendendo a soberania: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse, e afirmou que não pretende “terceirizar a responsabilidade” de proteger os cidadãos. O analista Jorge Rodrigues avalia que a América do Sul sempre foi vista como zona de influência: “O que acontece com a Doutrina Monroe é uma explicitação de uma concepção geográfica e geopolítica que sempre informou a política externa dos Estados Unidos.”
No dia seguinte, o presidente da Argentina, Javier Milei, classificou a ONU como “inútil” e cobrou do Reino Unido as Ilhas Malvinas na mesma fala em que reafirmou alinhamento com Washington e Israel. O vassalo exige dos outros o que entrega ao senhor: soberania para os que se dobram nunca houve, e não será o quintal de Trump que vai mudar isso.
