EUA viram xerifes do PIX com ajuda de Bolsonaro

Sanção contra facções abre brecha para intervenção no Brasil

PCC CV terroristas EUA
Flávio Bolsonaro (D) com Marco Rubio nos EUA. Foto: RS/Fotos Públicas

Entra em vigor nesta sexta-feira (5) a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida, anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio após um encontro regado a sorrisos entre os neofascistas Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Donald Trump, não altera uma vírgula na lei brasileira, mas entrega ao Tesouro estadunidense o poder de congelar bens e bloquear transações financeiras de qualquer empresa ou banco brasileiro sob a alegação de “apoio material” ao crime organizado.

Na prática, Washington agora tem um botão de pânico para apertar contra a soberania nacional. Como alertou o ministro Dario Durigan, basta uma alegação — talvez soprada por algum “patriota” em Washington — de que um banco brasileiro movimenta dinheiro de facções para que os EUA sancionem a instituição. O alvo principal? O Pix. A tecnologia brasileira, que incomoda o sistema bancário privado ianque, pode ser bloqueada sob o pretexto de combate ao terrorismo, transformando uma ferramenta de inclusão em refém da geopolítica de Trump.

O samba do terrorista louco

No comunicado em que anunciou a medida, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, escreveu que as facções “juntas, comandam milhares de membros e têm orquestrado ataques brutais contra policiais brasileiros, autoridades públicas e civis”.

Essa alegação de que as duas facções tem osquestrado ataques brutais contra autoridades públicas e civis é uma mentira escandalosa. O envolvimento tanto do PCC quanto do Comando Vermelho com autoridades públicas se dá em outra esfera.

Por exemplo, o ex-deputado estadual TH Joias, homem de confiança de Flávio Bolsonaro, mantém ligações estreitas com o Comando Vermelho, no Rio. Foi preso e cassado por causa disso.

O governo de Goiás, entre outubro de 2021 e agosto de 2025, com o agrobolsonarista Ronaldo Caiado a frente, movimentou R$ 1 bilhão na fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank, investigada na Operação Carbono Oculto e apontada como banco paralelo do PCC. Há mais.

O presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, passou a ser investigado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no setor de combustíveis e no mercado financeiro. A inclusão de Rueda ocorreu após a denúncia de um piloto de táxi aéreo, que o apontou como o verdadeiro proprietário de quatro jatinhos ligados à facção criminosa, supostamente registrados em nome de laranjas. O dirigente nega as acusações.

O denunciante, que atuou por dois anos na Taxi Aéreo Piracicaba (TAP), afirmou à PF ter transportado figuras centrais do esquema financeiro do PCC, como Mohamad Hussein Mourad (conhecido como “Primo”) e Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”), ambos atualmente foragidos.

Em um dos mais de 30 voos realizados para a dupla, o piloto relatou ter ouvido Beto Louco mencionar um encontro com o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP) e aliado político próximo de Rueda. Na mesma data, o piloto alega ter transportado uma sacola com suposto dinheiro em espécie para o gabinete do senador. Ciro Nogueira também nega que o encontro tenha ocorrido.

O empurrão eleitoral e a cortina de fumaça

Para o professor de Relações Internacionais Gilberto Maringoni, o timing da medida não é coincidência: trata-se da “primeira interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras”. Trump decidiu dar um balão de oxigênio na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, que vinha derretendo nas pesquisas após as revelações explosivas sobre sua “irmandade” com Daniel Vorcaro, o corrupto banqueiro do Banco Master, e o financiamento de R$ 134 milhões para o filme Dark Horse.

O enquadramento, no entanto, é o que os juristas chamam de “forçação de barra”. PCC e CV, embora cometam crimes no Brasil, não realizam ataques contra os EUA nem ameaçam a soberania ianque — requisitos básicos para a lista de terrorismo de Washington. Curiosamente, as milícias do Rio de Janeiro, que mantêm laços históricos e medalhísticos com o clã Bolsonaro, ficaram de fora da sanção. É o terrorismo seletivo: se é amigo do meu amigo, não é terrorista.

A resposta necessária contra o “Hondurasgate” digital

O governo Lula agora enfrenta o desafio de reagir a essa ofensiva que mistura segurança pública com submissão imperialista. Especialistas defendem que o Ministério da Justiça precisa ir à TV para mostrar que o combate ao crime organizado já é feito com inteligência nacional, como nas operações Carbono Oculto e no próprio cerco ao Banco Master.

A medida de Trump é o “Hondurasgate” em versão digital e bancária. Ao dar aos EUA o poder de policiar o fluxo financeiro brasileiro, Flávio Bolsonaro não está combatendo o crime; está entregando as chaves do cofre para quem sempre viu o Brasil como um quintal estratégico. O “patriotismo” que celebra sanções estrangeiras contra o próprio país tem nome: entreguismo.