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Como surgem movimentos neofascistas hoje?
VIDA

Como surgem movimentos neofascistas hoje?

Não há um botão secreto que explica como surgem movimentos neofascistas. Eles crescem quando crises reais – de renda, moradia, emprego, segurança e pertencimento – são sequestradas por uma resposta falsa, brutal e conveniente: apontar um inimigo, prometer ordem e vender autoritarismo como se fosse solução popular. O truque é antigo. A embalagem, agora, vem em vídeo curto, corrente de WhatsApp, influenciador de terno e indignação fabricada em escala industrial.

Chamar tudo de fascismo também não ajuda. Nem toda direita conservadora é neofascista, e nem todo eleitor de uma candidatura autoritária aderiu conscientemente a um projeto fascista. Mas tratar movimentos neofascistas como mero “excesso retórico”, por outro lado, é o tipo de ingenuidade que a democracia costuma pagar caro. Há sinais, métodos e interesses concretos por trás desse avanço.

Como surgem movimentos neofascistas em meio à crise

Movimentos neofascistas não aparecem do nada, nem vivem apenas de nostalgia de ditaduras. Eles prosperam quando setores amplos da população sentem que perderam controle sobre a própria vida. Salário que não alcança o fim do mês, trabalho precarizado, serviços públicos abandonados, violência cotidiana e uma sensação persistente de humilhação produzem medo e raiva. A extrema direita entra nessa brecha oferecendo uma narrativa simples para problemas complexos.

Em vez de discutir concentração de riqueza, poder dos bancos, desmonte de políticas públicas ou exploração no trabalho, ela desloca a culpa para alvos mais frágeis ou mais visíveis: imigrantes, pobres, pessoas negras, mulheres, população LGBTQIA+, movimentos sociais, professores, artistas, sindicalistas e supostos “inimigos internos”. É uma operação política clássica: proteger quem manda e fazer quem sofre brigar com quem sofre ao lado.

O fascismo histórico nasceu em condições específicas do século 20, marcado por guerra, crise econômica, nacionalismo agressivo e organizações de massa. O prefixo “neo” não significa uma cópia idêntica. Os movimentos atuais operam em democracias formais, disputam eleições, usam a linguagem da liberdade de expressão e exploram plataformas digitais. Mas preservam elementos reconhecíveis: culto à força, desprezo por minorias, ataque à imprensa, hostilidade à esquerda organizada, militarização da política e desejo de reduzir direitos em nome de uma ordem imaginária.

A crise social vira combustível, não destino

Crise não produz neofascismo automaticamente. Se produzisse, toda sociedade desigual cairia na mesma armadilha. O que define o rumo é a disputa política sobre as causas da crise e sobre quem deve pagar a conta.

Quando governos e elites tratam a desigualdade como detalhe, aceitam a precarização como inevitável e respondem ao sofrimento popular com austeridade, abrem espaço para aventureiros autoritários. A pessoa que passa horas em um ônibus lotado, vê o aluguel subir e teme perder o emprego não precisa de sermão. Precisa de respostas materiais. Se o campo democrático não as apresenta com clareza, a extrema direita oferece uma caricatura: “o problema é o corrupto”, “o problema é o criminoso”, “o problema é a esquerda”, “o problema é aquele grupo”.

A promessa é sedutora porque parece direta. Um líder forte vai limpar o sistema, punir os inimigos e restaurar uma grandeza nacional que, quase sempre, só existiu na propaganda. Só que a conta da “ordem” recai sobre os de baixo. Direitos trabalhistas viram obstáculo, direitos humanos viram privilégio, participação popular vira baderna. Para os poderosos, seguem os benefícios, as isenções e os bons negócios.

O ressentimento é organizado

A extrema direita não inventa toda frustração social. Ela organiza, seleciona e direciona essa frustração. O ressentimento de quem perdeu renda ou status pode ser convertido em ódio contra um grupo social, desde que haja uma máquina dizendo diariamente quem merece culpa.

Esse processo costuma misturar fatos isolados, mentiras deliberadas e emoções reais. Um caso de violência vira argumento para demonizar comunidades inteiras. Uma política de inclusão vira “ameaça” a quem sempre teve mais espaço. Uma investigação sobre corrupção deixa de ser defesa do interesse público e vira arma para destruir adversários políticos, enquanto os aliados do líder recebem perdão, sigilo ou desculpa.

A eficácia não depende de coerência. Depende de repetição, identificação e pertencimento. Quem entra nessa rede ganha uma comunidade, palavras de ordem, símbolos e a sensação de ter finalmente entendido o mundo. É por isso que somente desmentir uma mentira, embora necessário, nem sempre basta. A mentira resolve emocionalmente uma angústia que a política institucional ignorou.

Redes digitais, líderes e a fábrica do inimigo

As plataformas digitais deram velocidade ao que antes exigia comícios, panfletos e estruturas partidárias pesadas. Algoritmos recompensam escândalo, medo e indignação. Perfis especializados em provocação testam narrativas, espalham boatos e empurram o debate para limites cada vez mais violentos. Quando a mentira viraliza, a retratação já chegou atrasada e sem torcida.

Há também uma divisão de tarefas. Um político fala frases que parecem apenas “polêmicas”; um influenciador radicaliza o recado; páginas anônimas atacam jornalistas e militantes; empresários financiam ecossistemas de comunicação; grupos organizados pressionam instituições. Nada disso precisa de uma sala secreta com capa preta e mapa do mundo. Muitas vezes, funciona por afinidade de interesses, financiamento, oportunismo e impunidade.

O líder neofascista se apresenta como antissistema mesmo quando é deputado há décadas, herdeiro político ou aliado de velhas oligarquias. Ele transforma a própria ignorância em autenticidade e trata qualquer limite legal como perseguição. Se a Justiça decide contra ele, a Justiça estaria aparelhada. Se a imprensa investiga, a imprensa seria inimiga. Se perde uma eleição, o voto teria sido fraudado. O objetivo é corroer a confiança pública até que apenas a palavra do chefe pareça confiável.

No Brasil, o bolsonarismo mostrou a força desse roteiro. Não se trata de reduzir milhões de pessoas a um rótulo, mas de reconhecer uma corrente política que normalizou ataques às urnas, saudade da ditadura, violência contra adversários e desprezo por políticas de proteção social. O 8 de janeiro de 2023 deixou uma evidência material do que acontece quando a fantasia golpista deixa a tela do celular e encontra redes de mobilização dispostas a atacar a democracia.

O autoritarismo avança aos poucos

Movimentos neofascistas raramente começam pedindo abertamente o fim das eleições. Eles podem pedir “apenas” mais poder para as polícias, censura travestida de combate à doutrinação, perseguição a organizações civis, flexibilização de armas, criminalização de protestos ou exceções legais para enfrentar uma ameaça permanente. Cada passo é vendido como emergência. Depois, a emergência nunca acaba.

A linguagem tem papel central. Adversário político vira inimigo da pátria. Direitos viram privilégios. Diversidade vira decadência moral. Pesquisa científica vira conspiração. A violência estatal, quando atinge periferias e grupos marginalizados, é aplaudida como eficiência. Quando atinge aliados ricos e brancos, subitamente aparecem as garantias individuais. É uma moral seletiva, feita para hierarquizar vidas.

Também seria erro imaginar que tudo depende de um grande líder. Empresários, setores religiosos fundamentalistas, agentes públicos, comunicadores e parcelas do Judiciário ou das forças de segurança podem colaborar, por ação ou omissão, com agendas autoritárias. O neofascismo cresce quando instituições deixam de impor freios e quando grupos econômicos calculam que a destruição de direitos pode render lucro ou proteção de privilégios.

Combater a extrema direita exige mais que indignação

Defender a democracia não é apenas repetir que ela é bonita. Para quem vive em insegurança permanente, democracia precisa aparecer como comida na mesa, trabalho com direitos, escola pública, SUS, moradia, transporte e proteção contra a violência. Sem justiça social, o discurso democrático fica vulnerável ao charlatão que promete resolver tudo no grito.

Isso não significa abandonar o enfrentamento cultural. É preciso nomear racismo, misoginia, LGBTfobia e autoritarismo sem pedir licença a quem lucra com eles. Mas o combate funciona melhor quando une denúncia e projeto: informação confiável, organização nos bairros e locais de trabalho, sindicatos vivos, movimentos sociais, educação crítica e políticas públicas que devolvam dignidade concreta.

A extrema direita quer uma sociedade cansada, isolada e desconfiada de qualquer ação coletiva. A resposta mais eficaz começa no oposto: gente organizada, direitos defendidos e problemas reais tratados como responsabilidade pública. O neofascismo não é inevitável. Ele avança quando encontra abandono e medo. Recua quando a democracia deixa de ser uma promessa distante e vira força popular no cotidiano.

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